pastoral juvenil | Quinta-feira, 05 Março , 2009, 00:00

 

 

 

"Colocamos a nossa esperança no Deus vivo” (1 Tm 4,10)


Caros amigos,

No próximo Domingo de Ramos celebraremos, em nível diocesano, o XXIV Dia Mundial da Juventude. Enquanto nos preparamos para este evento anual, penso novamente com viva gratidão ao Senhor no encontro que se realizou em Sidney, em Julho do ano passado: encontro inesquecível, durante o qual o Espírito Santo renovou a vida de inúmeros jovens oriundos do mundo inteiro. A alegria da festa e o entusiasmo espiritual, vivido durante aqueles dias, foram um sinal eloquente da presença do Espírito de Cristo. E agora nos encaminhamos rumo ao encontro internacional programado em Madrid em 2011, que terá como tema as palavras do Apóstolo Paulo: “Arraigados nele, sobre ele edificados, e apoiados na fé” (cfr Cl 2,7). Em vista deste evento mundial dos jovens, queremos realizar juntos um percurso formativo, reflectindo em 2009 sobre a afirmação de São Paulo: “Colocamos a nossa esperança no Deus vivo” (1 Tm 4,10), e em 2010 sobre a pergunta do jovem rico a Jesus: “Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna?” (Mc 10,17).


A juventude, tempo da esperança

 

 

Em Sidney, a nossa atenção se concentrou sobre aquilo que o Espírito Santo diz hoje aos fiéis, e em especial a vós, caros jovens. Durante a Santa Missa conclusiva, vos exortei a deixar-vos plasmar por Ele para serem mensageiros do amor divino, capazes de construir um futuro de esperança para toda a humanidade. A questão da esperança está, na verdade, no centro da nossa vida de seres humanos e da nossa missão de cristãos, sobretudo na época contemporânea. Todos sentimos a necessidade da esperança, não de uma esperança qualquer, mas de uma esperança salda e confiável, como quis destacar na Encíclica Spe salvi. A juventude, em especial, é tempo de esperanças, porque olha ao futuro com várias expectativas. Quando se é jovem, nutrem-se ideais, sonhos e projectos; a juventude é o tempo no qual amadurecem escolhas decisivas para o resto da vida. E talvez, justamente por isso, é a fase da existência na qual florescem com força as perguntas fundamentais: por que estou sobre a terra? Que sentido tem viver? Que será da minha vida? E ainda: como alcançar a felicidade? Por que o sofrimento, a doença e a morte? Que existe depois da morte? Interrogativos que se tornam prementes quando devemos enfrentar obstáculos que, às vezes, parecem insuperáveis: dificuldades nos estudos, falta de trabalho, incompreensões na família, crise nas relações de amizade ou na construção de uma harmonia entre o casal, doenças ou deficiências, carência de recursos adequados como consequência da actual e difusa crise económica e social. Então, pergunta-se: onde buscar e como manter viva no coração a chama da esperança?

 

Em busca da “grande esperança”

 

 

A experiência demonstra que as qualidades pessoais e os bens materiais não bastam para garantir aquela esperança de cujo ânimo humano está em busca constante. Como escrevi na citada Encíclica Spe salvi, a política, a ciência, a técnica, a economia e qualquer outro recurso material sozinhos não são suficientes para oferecer a grande esperança à qual todos aspiramos. Esta esperança “só pode ser Deus, que abraça o universo e nos pode propor e dar aquilo que, sozinhos, não podemos conseguir” (n. 31). Eis o motivo pelo qual uma das principais consequências do esquecimento de Deus é a evidente perda, que marca as nossas sociedades, que provoca solidão e violência, insatisfação e perda de confiança que não raramente desembocam no desespero. Claro e forte é o chamado que nos vem da Palavra de Deus: “Maldito o homem que se fia no homem, que faz da carne a sua força, mas afasta o seu coração de Javé. Ele é como um cardo na estepe: ele não vê quando vem a felicidade” (Jr 17,5-6).


A crise da esperança atinge mais facilmente as novas gerações que, em contextos socioculturais sem certezas, sem valores e sem sólidos pontos de referência, se encontram a enfrentar dificuldades que parecem superiores a suas forças. Penso, caros jovens amigos, a tantos vossos coetâneos feridos pela vida, condicionados por uma imaturidade pessoal, que muitas vezes é consequência de um vazio familiar, de escolhas educativas permissivas e libertárias, e de experiências negativas e traumáticas. Para alguns – e infelizmente não são poucos –, o desemboco quase obrigatório é uma fuga alienante rumo a comportamentos de risco e violentos, rumo à dependência
de drogas e de álcool, e rumo a tantas outras formas de dificuldades da adolescência. E mesmo assim, inclusive em quem acaba se encontrando em condições penosas por ter seguido os conselhos de “péssimos mestres”, não se apaga o desejo de amor verdadeiro e de autêntica felicidade. Mas como anunciar a esperança a esses jovens? Nós sabemos que somente em Deus o ser humano encontra a sua verdadeira realização. O compromisso primário que envolve todos nós é, portanto, uma nova evangelização, que ajude as novas gerações a redescobrirem a face autêntica de Deus, que é Amor. A vós, caros jovens, que estais em busca de uma salda esperança, dirijo as mesmas palavras que São Paulo endereçou aos cristãos perseguidos na Roma antiga: “Que o Deus da esperança vos cumule de toda alegria e paz em vossa fé, a fim de que pela acção do Espírito Santo a vossa esperança transborde” (Rm 15,13). Durante este ano jubilar dedicado ao Apóstolo dos Gentios, por ocasião do bimilenário do seu nascimento, aprendamos com ele a nos tornar testemunhas críveis da esperança cristã

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São Paulo, testemunha da esperança


Encontrando-se imerso em dificuldades e provas de vários géneros, Paulo escreveu ao seu fiel discípulo Timóteo: “Colocamos a nossa esperança no Deus vivo” (1 Tm 4,10). Como esta esperança havia nascido nele? Para responder a esta pergunta, devemos partir do seu encontro com Jesus ressuscitado no caminho de Damasco. Na época, Saulo era um jovem como vós, de cerca de vinte e cinco anos, seguidor da Lei de Moisés e decidido a combater com todos os meios aqueles que ele considerava inimigos de Deus (cfr At 9,1). Enquanto se dirigia a Damasco para prender os seguidores de Cristo, foi ofuscado por
uma luz misteriosa e se sentiu chamar por nome: “Saulo, Saulo, por que me persegues?”. Caído no chão, perguntou: “Quem és, Senhor?”. E aquela voz respondeu: “Eu sou Jesus, a quem tu estás perseguindo!” (cfr At 9,3-5). Depois daquele encontro, a vida de Paulo mudou radicalmente: recebeu o Baptismo e se tornou apóstolo do Evangelho. No caminho de Damasco, ele foi interiormente transformado pelo Amor divino encontrado na pessoa de Jesus Cristo. Um dia escreveu: “Minha vida presente na carne, eu a vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou a si mesmo por mim” (Gal 2,20). De perseguidor, se tornou, portanto, testemunha e missionário; fundou comunidades cristãs na Ásia Menor e na Grécia, percorrendo milhares de quilómetros e enfrentando toda espécie de peripécias, até seu martírio em Roma. Tudo por amor de Cristo.



A grande esperança está em Cristo


Para Paulo, a esperança não é somente um ideal ou um sentimento, mas uma pessoa viva: Jesus Cristo, o Filho de Deus. Penetrado intimamente por esta certeza, escreveu a Timóteo: “Colocamos a nossa esperança no Deus vivo” (1 Tm 4,10). O “Deus vivo” é Cristo ressuscitado e presente no mundo. Ele é a verdadeira esperança: o Cristo que vive connosco e em nós, e que nos chama a participar da sua própria vida eterna. Se não estamos sozinhos, se Ele está convosco, ou melhor, se Ele é o nosso presente e o nosso futuro, por que temer? A esperança do
cristão é, portanto, desejar “o Reino dos céus e a vida eterna como nossa felicidade, pondo toda a nossa confiança nas promessas de Cristo e apoiando-nos, não nas nossas forças, mas no socorro da graça do Espírito Santo” (Catecismo da Igreja Católica, 1817).



O caminho rumo à grande esperança


Como um dia encontrou o jovem Paulo, Jesus quer encontrar cada um de vós, caros jovens. Sim, antes de ser um desejo nosso, este encontro é um vivo desejo de Cristo. Mas alguém de vós poderia me perguntar: Como posso encontrá-lo eu, hoje? Ou melhor, de que maneira Ele se aproxima de mim? A Igreja nos ensina que o desejo de encontrar o Senhor já é fruto da sua graça. Quando na oração expressamos a nossa fé, inclusive na escuridão, já O encontramos porque Ele se oferece a nós. A oração perseverante abre o coração a acolhê-lo, como explica
Santo Agostinho: “O Senhor Deus quer que nas orações se exercite o nosso desejo, de modo que nos torne capazes de receber o que Ele pretende dar-nos” (Cartas 130,8,17). A oração é dom do Espírito, que nos torna homens e mulheres de esperança, e rezar mantém o mundo aberto a Deus (cfr Enc. Spe salvi, 34).
Dai espaço à oração na vossa vida! Rezar sozinhos é bom, mas ainda mais belo e profícuo é rezar juntos, porque o Senhor garantiu estar presente onde dois ou três estiverem reunidos em seu nome (cfr Mt 18,20). Existem muitas maneiras para se familiarizar
com Ele; existem experiências, grupos e movimentos, encontros e itinerários para aprender a rezar e crescer, assim, na experiência da fé. Participai da liturgia nas vossas paróquias e nutri-vos abundantemente da Palavra de Deus e da activa participação aos Sacramentos. Como sabeis, ápice e centro da existência e da missão de cada fiel e de cada comunidade cristã é a Eucaristia, sacramento de salvação no qual Cristo se faz presente e doa como alimento espiritual o seu próprio Corpo e Sangue para a vida eterna. Mistério realmente inefável! Em torno da Eucaristia, nasce e cresce a Igreja, a grande família dos cristãos, na qual se entra com o Baptismo e se é constantemente renovados graças ao sacramento da Reconciliação. Os baptizados, depois, mediante a Crisma, são confirmados pelo Espírito Santo para viver como autênticos amigos e testemunhas de Cristo, enquanto os sacramentos da Ordem e do Matrimónio os tornam aptos a realizarem suas tarefas apostólicas na Igreja e no mundo. A Unção dos enfermos, por fim, nos faz sentir o conforto divino na doença e no sofrimento.



Agir segundo a esperança cristã


Se vos nutrirdes de Cristo, caros jovens, e viverdes emersos n'Ele como o apóstolo Paulo, não podereis não falar d'Ele e não fazê-lo conhecer e amar por muitos outros vossos amigos e coetâneos. Tornai-vos seus fiéis discípulos, sereis assim capazes de contribuir a formar comunidades cristãs impregnadas de amor, como aquela de que fala o livro dos Actos dos Apóstolos. A Igreja conta convosco para esta empenhativa missão: que as dificuldades e as provas que encontrardes não vos desencorajem. Sede paciente e perseverante, vencendo a natural tendência dos jovens à pressa, a querer tudo e já.

 
Caros amigos, como Paulo, testemunhai o Ressuscitado! Fazei conhecê-lo àqueles que, coetâneos e adultos, estão em busca da “grande esperança” que dê sentido a sua existência. Se Jesus se tornou a vossa esperança, dizei-o também aos outros com a vossa alegria e o vosso empenho espiritual, apostólico e social. Habitados por Cristo, depois de ter depositado n'Ele a vossa fé e toda a vossa confiança, difundi esta esperança em torno a vós. Fazei escolhas que manifestem a vossa fé, mostrai ter compreendido as insídias da idolatria do dinheiro, dos bens materiais, da carreira e do sucesso, e
não vos deixei atrair por essas falsas quimeras. Não cedei à lógica do interesse egoístico, mas cultivai o amor pelo próximo e esforçai-vos de colocar vós mesmos e as vossas capacidades humanas e profissionais a serviço do bem comum e da verdade, sempre prontos a responder “a todo aquele que vos pede a dar razão da vossa esperança” (1 Pd 3,15). O cristão autêntico nunca está triste, mesmo que tenha que enfrentar provas de vários géneros, porque a presença de Jesus é o segredo da sua alegria e da sua paz.

 
Maria, Mãe da esperança


Que o modelo deste itinerário de vida apostólica seja para vós São Paulo, que alimentou a sua vida de constante fé e esperança seguindo o exemplo de Abraão, do qual escreve na Carta aos Romanos: “Ele, esperando contra toda esperança, creu e tornou-se assim pai de muitos povos” (Rm 4,18). Sobre essas mesmas pegadas do povo da esperança – formado pelos profetas e pelos santos de todos os tempos – nós continuamos a avançar rumo à realização do Reino, e no nosso caminho espiritual nos acompanha a Virgem Maria, Mãe da Esperança. Aquela que encarnou a esperança de Israel, que
doou ao mundo o Salvador e permaneceu, salda na esperança, aos pés da Cruz, é para nós modelo e amparo. Sobretudo, Maria intercede por nós e nos guia na escuridão das nossas dificuldades no alvorecer radioso do encontro com o Ressuscitado. Gostaria de concluir esta mensagem, caros jovens amigos, fazendo minha uma bela e conhecida exortação de São Bernardo, inspirada no título de Maria Stella maris, Estrela do mar: “Tu, que na instabilidade contínua da vida presente, nota estar abalado entre as tempestades mais do que caminhar sobre a terra, mantém bem fixo o olhar ao fulgor desta estrela, se não quiser ser levado embora pelos furacões. Se insurgirem os ventos das tentações e se perder entre os rochedos das tribulações, olha para a estrela, invoca Maria... Nos perigos, nas angústias, nas perplexidades, pensa em Maria, invoca Maria... Seguindo os seus exemplos, não te perderás; invocando-a, não perderás a esperança; pensando nela, não errarás. Apoiando-te nela, não escorregarás; sob a sua protecção, não terás medo de nada; com a sua guia, não te cansarás; com a sua protecção, chegarás a teu destino” (Homilias em louvor de Nossa Senhora, 2,17)

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Maria, Estrela do mar, sê tu a guiar os jovens do mundo inteiro ao encontro com o teu Filho divino Jesus, e sê ainda tu a celeste custódia de sua fidelidade ao Evangelho e de sua esperança.


Enquanto garanto a minha quotidiana recordação nas preces para cada um de vós, caros jovens, de coração abençoo todos vós e as pessoas que vos são mais queridas.

 

 


Vaticano, 22 de Fevereiro de 2009

Bento XVI

 

 

 

fonte: radiovaticana

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